sábado, 1 de novembro de 2008

TUDO MUDA - NA VIDA FÍSICA
E NA VIDA SOCIAL!

Tudo muda, tudo é móvel no Universo, porque o movimento é a condição mesma da vida.
Outrora, os homens, que o isolamento, o ódio e o medo deixavam na sua ignorância nativa, enchendo-os do sentimento de sua própria fraqueza, só o imutável e o eterno viam em redor.
Para eles, o céu era uma abóbada sólida, um firmamento no qual estavam pregadas as estrelas. A Terra era o firme alicerce dos céus e só um milagre podia fazer oscilar sua superfície. Mas, desde que a civilização prendeu os povos aos povos, numa mesma humanidade; desde que a história atou os séculos aos séculos; desde que a astronomia, a Geologia fizeram mergulhar o olhar em bilhões de anos para trás — o homem deixou de ser isolado e, por assim dizer, de ser mortal. Tornou-se a consciência do imperecível Universo.
Não relacionando já a vida dos astros nem a da Terra com sua própria existência tão fugitiva, mas comparando-a com a duração da raça inteira, e com a de todos os seres que antes dele viveram, viu a abóbada celeste revolver-se num espaço infinito e a Terra transformar-se num globozinho girando no meio da Via Láctea.
A terra firme, que ele pisa aos pés e que julgava imutável, anima-se e agita-se. As montanhas levantam-se a abaixam-se. Não são somente os ventos e as correntes oceânicas que circulam em roda do planeta, os próprios continentes deslocam-se com os seus cumes e vales, põem-se a caminhar sobre a redondeza do globo.
Para explicar todos esses fenômenos geológicos,já não há necessidade de imaginar súbitas mudanças do eixo terrestre, abaixamentos gigantescos. De ordinário, não é dessa forma que procede a Natureza; é mais calma nas suas obras, modera a sua força e as mais grandiosas transformações fazem-se sem o conhecimento dos seres que ela sustenta. Eleva as montanhas e enxuga os mares sem perturbar o vôo de um mosquito.
Certa revolução que parece a queda dum raio levou milhares de séculos a completar-se. E que o tempo pertence à Terra: renova, todos os anos, sem se apressar, o seu adorno de folhas e flores; do mesmo modo, remoça no decorrer das idades, os seus continentes pela sua superfície.

ELISÉE RECLUS

Nenhum comentário: